segunda-feira, 14 de novembro de 2011

SINAY, o meu primeiro romance

O que disseram alguns escritores:

SINAY, assim se chama o livro. SINAY é o nome de um dos personagens, mas a história conta a saga de Cristina e sua família. O mote da história, sobre o qual a autora cria o enredo, é um fenómeno que há alguns anos era corrente em Luanda. Estrangeiros que prometiam enriquecimento fácil através da reprodução, por meios químicos, de notas de dólares americanos. É uma história de ambição desmedida, polvilhada com as nossas práticas sociais, como o feitiço, e outros rituais.

SINAY põe a nu o paradoxo de viver o cristianismo e algumas das nossas práticas sociais. Há mesmo reminiscências bíblicas directas e indirectas no livro, a começar pelo título que remete para o local onde Moisés recebeu os 10 mandamentos. Deste ponto de vista, o livro é, se quisermos, um registo sociológico.

O estilo da escrita em SINAY é antes de mais uma combinação de estilos adquiridos, sobretudo, pela diversidade social de linguagens que organizam artisticamente o texto. A diversidade de línguagens entra na história através das falas. É evidente no livro a preocupação da autora em apontar a historicidade dos fenómenos da linguagem apreendidos pelo viés da cultura popular. A língua no texto não só representa, mas ela própria é objecto de representação.

A narrativa, ao debruçar-se sobre o presente, descobre um tempo que não é o seu. Este diálogo transtemporal estimula o prazer da leitura.

Creio que estamos diante de um texto de cunho existencialista que nos recorda que a realidade, a vida quotidiana inevitável é tão misteriosa quanto o próprio acto de criar. Por isso SINAY seguirá o seu caminho.

Seria inútil sugerir linhas de leitura para esta obra, aliás estaria a imiscuir-me num espaço que, neste acto, não me pertence – o do crítico. Tenho a certeza, o livro encontrará o seu caminho.

Vamos, pois, em conjunto desejar parabéns à Ngonguita Diogo.

Cristóvão Neto - Escritor

ENTRE A MANIPULAÇÃO E A LÓGICA,

A LUTA ETERNA ENTRE O BEM E O MAL

Vamos iniciar debitando algumas ideias à volta da temática do livro, mas antes, vale desde já recordar que em literatura as obras afirmam-se, ultrapassam o tempo em que foram pensadas e escritas, ou não, em função da importância que certa abordagem temática representa para a sociedade em geral e, sobretudo, pela sua pertinência num dado aglomerado populacional.

Assim, temas como o amor, a morte, o ódio, a vingança, a infidelidade e outras traições só para citar alguns, foram alvos de esmerada atenção desde que surgiu a literatura oral e foi-se disseminando no decurso da História da literatura Universal;

com os correspondentes períodos, correntes, estilos ou escolas, etc.

No caso que nos assiste, Ngonguita Diogo traz a lume, um tema bastante especulado no Universo africano: A manipulação que é feita a pessoas inocentes, através de práticas religiosas não autorizadas ou reservadas por indivíduos de baixa formação ética e moral.

Cada um à sua maneira, a temática em apreço (repito) já foi tratada literalmente no nosso espaço pátrio por António de Assis Júnior (O segredo da Morta), Óscar Ribas (Uanga) e mais recentemente Rosária da Silva (Totonya) entre outros.

Então, onde está o mérito do livro SINAY?

Ngonguita Diogo através de uma brilhante combinação entre a linguagem cuidada e a popular consegue de forma clara e frontal levar-nos aos labirintos maquiavélicos de Sinay, um médium ou faz-se passar como tal, ou seja, um ser humano com capacidade para comunicar-se com Forças Ocultas ou Forças do Além, se quisermos, personificado neste caso, como Santo.

A renovação temática está a partir de um exercício continuo de escrita, onde se decantam as expressões populares peculiares dos bairros marginais. Vamos encontrar um cenário geográfico original e pouco tratado na literatura angolana moderna, um bairro periférico que até é referência em África, ou seja, o Palanca.

2. Personagens: De um lado temos quatro personagens, pessoas de bem em busca de melhores condições de vida, encabeçadas por Cristina (personagem principal), Carlos (filho desta). Ana, (tia) e Chico (irmão). Do outro, em clara oposição, temos o Sinay a manipular, o Santo, um suposto espírito do além, o indivíduo que conduzia o carro verde-escuro e ainda o pastor da igreja Massola, também colaborador do impostor.

A trama passa pela cobiça ou desejo de enriquecimento fácil de alguns personagens já antes descritos, a partir da transformação de cédulas deixadas num contentor por Jonas Savimbe, no dizer do Pedro, um dos intervenientes no assunto, tio de Ana. Essa transformação era feita por líquidos caros que só se encontrariam em Luanda, naquilo que vulgarmente ficou apelidado de “lavagem”.

De manipulação em manipulação, Cristina foi sendo vitima, primeiro dos chamados “técnicos” que supostamente transformariam as cédulas em milhões de dólares americanos.

A vigarice ganhou outros contornos, atingindo o auge com a entrada em cena do Sinay, personagem macabro, homem sem escrúpulos, ao ponto de inventar a “lavagem espiritual das cédulas” conceito que só poderia ter sido parido por uma mente perversa. Aliada a essa vil maldade, Sinay pretendia a médio/longo prazo, vender a alma do Carlos na mayombola, porque era inteligente e jovem, fortificando assim o seu poder pessoal.

Porém, conforme afirma a sabedoria milenar dos povos originais, “Deus aperta mas não afoga” e Cristina depois conhece um líder espiritual que aparentemente trabalha para o bem, Papá Ndombele, que através de (óleos, essências, ervas, unguentos, velas e banhos espirituais) diz restaurar as capacidades físicas e emocionais dos necessitados.

Quanto ao seu futuro, Cristina entendeu comunicar-se pessoalmente com a Entidade que, segundo ela, continuava a ser o Ente Superior do Universo, seu único mentor.

CONCLUSÃO:

Ngonguita Diogo, com uma combinação magistral da língua padrão e o português popular de Angola, descreve em Sinay um mundo secular, paralelo mas autentico que acompanha a humanidade desde os primórdios.

As imagens atrevidamente reelaboradas dos locais emblemáticos de Luanda, como o ex-mercado Roque Santeiro, o cemitério do Camama, a estrada de Catete, a própria Baixa de Luanda, terminando no Palanca, atiçam a nossa memória individual e colectiva, fazendo-nos recordar que o conhecimento e aprofundamento da nossa cultura, passa necessariamente pelo estudo sistematizado, pesquisa e investimento.

Com este romance a autora junta-se a plêiade de novos narradores que com segurança enriquecerão o nosso imaginário neste promissor século XXI, quando se falar da literatura angolana do século XXI, teremos que contar obrigatoriamente com o nome sedutor na forma e no conteúdo: Ngonguita Diogo.

António Gonçalves - Escritor

UMA OBRA SINGULAR

“DE FACTO singular! e se me permitissem a ousadia plácida da realização do sonho para este instante, onde almejamos edificações, SINAY nos transforma em testemunha do surgimento de uma basilar pedra para a leitura do novo posicionamento do romance angolano”

Trajanno Nankova TRAJANNO – Escritor

UMA FICÇÃO SOBRE A REALIDADE

“ QUALQUER UM que tivesse tido o privilégio, que alguns de nós teve, de estar em contacto, pela primeira vez com este romance, seria levado a travar a sua respiração ao ponto de só retomá-la ao terminar a leitura de uma história tão perto de uma realidade que está representada no Nosso modus vivendi.

Vicente FÉLIX

UM LIVRO SOBRE NÓS

“A NARRAÇÃO carregada de fortes emoções descreve abertamente a criatividade da jovem escritora. SINAY é um texto envolvente, onde Ngonguita Diogo propositadamente, para chamar e despertar a atenção da nossa sociedade, evidência a realidade dos dias de hoje.

A linguagem clara e corrente, são sem sobra de dúvidas itens que dão valor à obra, decorada de conselhos e educação.

Ngonguita deixa espalhada características da alma feminina, e fica evidente que a escritora se encarna na alma e pele Luandense. É impressionante a forma como descreve as inúmeras situações do texto.

Outro aspecto relevante, é o branqueamento de capital, que Ngonguita traz à ficção transplantada da vida real, das corridas ao dinheiro fácil escrita ao pormenor.

Com este livro Ngonguita despe a sociedade… e pede reflexões.”

Penelas SANTANA - Escritor

A CONSAGRAÇÃO DA NGONGUITA

“ESTA, É inelutavelmente a obra que consagra Ngonguita Diogo na galeria dos autores contemporâneos mais influentes da literatura nacional.

Dona de uma narrativa comprometida e ousada e comprometida, Ngonguita Diogo desenha no seu romance um sorriso de esperança e aponta a direcção por onde deve passar a justiça social.

Nesta obra, Ngonguita reclama assegurando que a razão tem um litoral, depois do qual só a fé pode navegar.

Esta é pois a obra que faltava na nossa literatura e na sua cabeceira. Este é o retrato da Angola do pós-guerra, da Angola de hoje.”

Walther PINTO LEITE - Escritor

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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Falar de amor

APENAS UM OI! E O MEU CORAÇÃO REBITA


Que vento é este que busco de ti para apagar o meu fogo?
Estremecem-me as paredes do templo com o toque do teu olhar abstruso
e ondas libidinosas pairam no ar que respiro

Vingar-me?

Sim!
Do teu suor que é o meu mel
Do teu beijo que tatuou o meu corpo
Do prazer que busquei no gosto do teu desejo

Vingar-me por sentir emoção ao ver-te e enxergar que ainda não estou morta
Vingar-me da seiva morna que inunda as minhas veias já cansadas de guerra
e remoçam o lume adormecido da paixão que eu tinha esquecido

Inebriar-me com o perfume do teu prazer num troco de suores
E sustentar cintilante a candeia que ceva a minha fraqueza
Cada vez mais… até saciar a sede e a fome que me devoram

Dá-me o céu pois a lua já é nossa
E no percurso do nosso voo
Quero esvair-me,
Diluir-me,
Desgastar-me de tão pouco usar-te

Apenas um oi! e o meu coração rebita



MATURIDADE


Consagro o meu senso na escuridão do ciúme adormecido na elegância
da minha maturidade
desgasto-me por tanto desejar unir meu corpo no silêncio do teu
surrei-me de paixão
solvi ternura no rosto oculto que me deste de presente
rasgos de cumplicidade
momentos de libidinagem
de êxtase
de arrombo e de omito
contudo meu pé se cala
no gosto do orgasmo desfeito na luz da minha ilusão
e firmo a vontade de macerar meu ego na acidez que acirra a lavra divina
porem, guardo-me para mostrar que meu corpo apenas a ti pertence
e perdoo o lesmar da chama que ateará a indolência da minha preguiça



DESASSOSSEGO

Flor abelha que Mela o doce do meu carinho rejeitado
Surripia o gosto do sangue que gasta meu coração em chaga
Se eu fosse luz o caminho para o éden seria descoberto

Dos meus desacertos busco forças
Nos excessos dos acertos desencontros
Das forças esboço quimeras
Da utopia seduzo pesadelos

A minha verdade é uma mentira
Que se faz certeza na pobreza dos meus sentimentos confusos
Se fosse luz derramaria fel que adoçaria a minha solidão
Sou por acaso uma estrela de ovos numa frigideira

Dos meus esforços tenho sorte
Da sorte que nunca é alcançada
Se fosse luz a noite teria um inimigo
Sou apenas um buraco que te lava ao paraíso

Weza, a Princesa

No dia 13 de Outubro de 2010, plantei um diamante em Angola.
Veio a público mais um livro da minha autoria "Weza, a Princesa", trata-se de um infanto-juvenil aonde dei vida a uma Princesa Bantu.

Estou feliz.

O lançamento aconteceu no dia do aniversário do meu Edson Giovanni.

segunda-feira, 22 de março de 2010

LANÇAMENTO DO MEU PRIMEIRO LIVRO

"NO MBINDA O OURO É SANGUE"
Já se encontra no mercado angolano.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O MEU POETA VAGUEIA PELAS RUAS

Estive a pensar, e quando penso é um perigo, mas eu penso mesmo assim, e porque oiço coisas que às vezes me entristecem “ esses meninos não são meninos de rua!” eu ouvi na voz autorizada de uma personalidade, com projectos sociais para ajudar as crianças, e então pensei nas oportunidades que temos dado aos meninos que nos abordam na rua.
Descobri que nas ruas vivem artistas, engenheiros, arquitectos, cantores, professores e todo o tipo de gente que engrandece as sociedades. Alguns não são órfãos de guerra, outros não são filhos de pobres, mas fazem-se nas ruas, porque gostam da lua, ou porque o sol lhes aquece a alma.
O meu menino de rua, não é, jamais será uma criança sem tecto, com fome, com sede e injustiçado, pois ele não tem corpo, não tem voz e não tem alma, é apenas um menino na rua que me acompanha.
Era mais uma manhã, das muitas em que o rosto da fome e mãos calejadas mostrava os dentes amarelos pelo desleixo da higiene. Os olhos expunham a luz que ilumina, a vontade da criança que luta para ser homem honrado.
Já era hábito ouvir aquele “bom dia madrinha” que agora recordo nunca ter respondido, de tão atarefada com os meus problemas, naquele dia porém, me permiti ao diálogo porque estava sem dinheiro.
As cores de um arco-íris suportam também a beleza dos filhos, que insistem serem donos dos seus destinos. Vidas vividas sem medo, sem tecto, sem vozes, sem almas, vegetando, chafurdando, escavando areias movediças, sugando os vermes nos becos. E se encantam com as cores da lua quando os cobertores são os tentáculos astro rei.
E conto este conto da criança na rua, com lágrimas que insistem em enevoar os meus faróis cansados de guerra.
Estava o menino sem nome, sem pé para calçar o sapato de prata, sem boca para gritar fome de paz, de amor, de saber, de fraternidade; sem olhos para ver fogos de artifícios, sem força para se apossar do pedaço de vida que julga ser dele, parado no passeio sujo de pó, calçada sem cálcio, com ramela nos olhos focos, mostrando as feridas dos maus tratos consentidos, no arroto do dia, que dia chama, sem que nada venha alterar a rotina.
E o meu menino sem voz fez-se gigante no diálogo que vos mostro.
- Bom dia madrinha; vou já lavar o seu carro.
- Hoje não, porque não tenho dinheiro para pagar o serviço.
- Aceita madrinha querida, meu suor é mesmo de graça, apenas um pão para matar minha fome.
- Teus pais onde estão?
- Perdi-os ainda criança na confusão do Roque Santeiro.
- Mas como?
- Meu pai discutia com a minha mãe por me ter levado ao mercado. Papá se perdeu na razão da palavra e passou logo para agressão, a luta que se fez feroz, congregou gente de todas as idades e eles se esqueceram de mim.
- E depois o que fizeste?
- Andei perdido pelo mercado, senti fome e pedi comida à uma senhora que cozinhava para vender.
“ Senhora pode me oferecer um prato de funge? Tenho muita fome”
“aqui nada se dá de graça, tudo tem preço, queres comida? Lava a loiça e depois comes as sobras dos clientes”
- Olhei com desgosto para aquele ambiente que não era meu, porém, passei a ser o miúdo da senhora da praça.
- Teus pais não te procuraram?
- Não sei porque passei a viver ao lado da velha senhora que me acolheu dando-me o primeiro emprego.
- Não sabias como voltar para tua casa?
- Eu nunca tive casa, minha mãe não vivia com o meu pai, que nunca quis saber de mim, o meu padrasto nunca me aceitou.
- Mas não entendo, disseste-me que foste ao mercado com os teus pais…
- Sim. Minha mãe por me ver roto, pediu ao meu pai dinheiro para irmos ao mercado comprar roupa, e o encontro foi no Roque Santeiro, ele não gostou de me ver e reclamou com ela, ainda me lembro com tristeza do motivo da briga.
“ porque o trouxeste, já te disse uma vez e repito! ajuda eu te dou, mas convivência com o teu filho não me interessa”
“ ele também é teu filho, por isso deves conviver com ele, além disso trouxe-o para experimentar as roupas e o calçado”
“ as roupas e o calçado? Não penses que estou rico, trouxe-te dinheiro para uns farditos e não se fala mais no assunto”
“ uns farditos, o miúdo estás a crescer e precisa de muita coisa, comida, roupa, calçado, livros e amor”
“ isto não é problema meu, quando resolveste engravidar não me pediste autorização”
“ autorização? Então é preciso pedir autorização para engravidar? Estás a ficar maluco o quê? Nós vivíamos juntos e decidimos que faríamos filhos, os nossos problemas começaram quando arranjaste aquela senhora com quem vives”
“ não fales da minha mulher senão parto-te a cara”
“ então parte! Se pensas que tenho medo de ti estás enganado”
- E foi assim que a luta começou. Nesta altura estudava a quarta classe e gostava muito de ir a escola para aprender, mas a senhora que me acolheu precisava dos meus serviços a toda hora, por isso não me colocou numa escola, para ela bastava a comida que me dava, para me manter vivo e activo; mas uma coisa me agradava naquela casa, não ouvia gritos de rejeição, por isso fiquei a morar com ela.
- Então se quisesses poderias ter voltado para casa….
- Sim. Eu conheço o caminho.
- Não entendo, as mães querem sempre ter os filhos ao seu lado…
- O meu padrasto batia-lhe constantemente por minha causa.
- E porque ela não o abandonou?
- Ela gostava mais dele e dos meus irmãos do que de mim.
- Nunca mais a viste?
- Tenho estado com ela, sempre que sinto saudade, mas sou recebido na rua e os meus irmãos têm vergonha de mim.
- E o teu pai?
- Cruzo com ele na rua algumas vezes, ele não me cumprimenta; sempre que cruzamos vira a cara. Certa vez ouvi uma conversa que me deixou muito triste…
- Podes contar?
- Meu pai dizia a um amigo, que eu era o filho delinquente do irmão desaparecido na guerra, por isso queria distância de mim, não podia correr o risco de perder tudo que tinha conseguido com muito suor, até aconselhou o amigo para me evitar.
- Ouviste dele estas palavras, ou alguém te contou.
- Ouvi no dia em que a fome me empurrou para junto dele; chamei-o de pai e o amigo estranhou, quis saber quem eu era, por isso se justificou daquela maneira, depois de correu comigo a pontapés.
- E porque andas por estas bandas a lavar carros?
- Com o passar dos anos compreendi que poderia conseguir ganhar o meu próprio dinheiro, por isso estou aqui.
- A senhora com quem vives sabe que fazes este tipo de negócio?
- Sim sabia, aqui ganho mais dinheiro do que ela faz num dia de trabalho suado na praça, assim podia ajuda-la, mas fui corrido de casa pelo filho dela.
- Porquê?
- Por ciúmes, a partir do momento em que passei a custear quase todas as despesas da casa, a velha senhora começou a me tratar com respeito e consideração e o filho não gostou.
- E depois aonde foste morar?
- Estava eu deitado na rua, quando uma das minhas clientes me viu e quis conhecer a minha história, calmamente contei sem omitir nenhum detalhe, ela até lagrimou e levou-me para morar na casa dela. Deu-me roupas boas, uma cama decente para dormir e até colocou-me num colégio particular.
- Puxa que maravilha…
- Mas foi sol de pouca dura, apenas consegui fazer a 6ª classe, porque mais uma vez uma vez fui expulso.
- E porquê?
- Eles recebiam queixas constantes do colégio, referindo-se ao comportamento negativo do filho que tinham, o senhor dizia que era pela convivência constante com um menino de rua que a mulher levou para casa.
- E vocês eram amigos?
- Não, vivíamos apenas no mesmo tecto, ele era arrogante e preconceituoso, andava em más companhias, até tentei aconselha-lo a mudar de comportamento, escolher outras amizades, mas ele dizia que de mim nada tinha para aprender.
- E a mãe sabia disso?
-Sim, ela queria que o filho convivesse comigo, mas o pai não.
- E o que aconteceu de facto para seres expulso daquela casa?
- O jovem adolescente roubou um telefone móvel na escola, e quando foi apanhado disse aos pais que fui eu que o mandei roubar.
- Meu Deus e a tua protectora como reagiu?
- É muito difícil uma mãe acreditar que do seu ventre, tenha nascido uma criança com desvios de personalidade, por isso a minha protectora também acreditou na versão do filho e não me defendeu, pelo contrário, lamentou por me ter dado abrigo e alguma instrução, espalhando pelo bairro um currículo que não era meu. Por ironia do destino, um ano depois de eu ter saído daquela casa, tomei conhecimento que o filho foi detido por roubo a mão armada.
- E agora vives aonde?
- Na rua como muitos meninos como eu, porque ninguém acredita na minha história.
- Estás a estudar?
- Na rua o que é meu é de todos, os meus cadernos, os meus lápis passeiam de mãos em mãos, aqui ninguém consegue estudar, quem tem sabedoria no pensamento passa a ser professor.
- Há quanto tempo vives esse tormento?
- Faz tanto tempo, que o tempo se fez preguiçoso e deixou de contar sua idade.
- Que lindo, tu és um poeta.
- Sou apenas o filho do nada que quer ser gente e não poeira.
- Então porque andas na rua? Pois percebo que és inteligente o bastante para conseguires um lar.
- Da minha inteligência têm medo senhora, dizem que meninos de rua não têm versos na alma, por isso não cantam poesia.
- Decerto não falas com as pessoas certas. Mas diz-me onde aprendeste a falar estas coisas?
- Eu vejo os pássaros cantar e a minha alma anda dispersa, procuro o calor da justiça para atar minhas pernas.
- Não seria melhor procurar um abrigo? Um lar para crianças de rua por exemplo?
- Não me vejo criança de rua madrinha, sou eu por acaso uma criança na rua, que deambula com olhos abertos à procura de um espaço para cozinhar minha teia; há muito esqueci a minha desgraça, eu que ando descalço e sonho com um sapato de prata, sou rafeiro, mas não aceito cortar os meus pelos, pois perdi o sentido da realidade, quando descobri que sou louco por ter poesia nas veias.
- Meu Deus, serás um grande artista, pois conheço o teu lugar e é para lá que te vou levar. Haverá cama para te deitares e cobertores para aquecer o teu corpo, porém a fome, matarás com a caneta da tua alma.
- Me vejo preso no sol e morto na sombra, meu corpo fica, mas minha alma voa contigo.
- Levo também o teu corpo para curar as tuas feridas.
- Hoje nada comi, bebi apenas o meu fim de menino na rua, a escuridão é a minha casa e tu és a minha luz!
- Vem!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O EMPATE DA NOSSA DERROTA

Prendam os Palancas Negras porque me mataram.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

2010 O ANO DA ESPERANÇA

Minha alma vadia deixou-se naufragar no canteiro da esperança,
que cospe os frutos maduros da colheita abençoada no ano que germina.
Grávida de sonhos, banhada em projectos me vejo cercada de sorte
Meus versos, meus livros se espalham pelos ares da fome dos meus conterráneos
que gritam de indijestão,
mas lambem o prazer da minha companhia.
E lá vou eu soberana,
esconder-me nas urnas daqueles que acreditam na minha caneta,
temperada com o aroma da lavra que não se esgota de sonhos.